24 horas / A história do meu parto

24 horas / A história do meu parto

Spoiler Alert: Aviso já de que este post é longo.

De um dia para o outro tornei-me mãe de alguém. Ainda hoje acho ser inacreditável.

Por mais tempo que me tivessem dado, 41 semanas e 6 dias neste caso, não foi o suficiente. Eu li livros, li N artigos na internet, assisti a videos de partos, naturais no hospital, com epidural, em casa, cesarianas. Treinei o chão pélvico, meditei segundo hypno-birthing, fui a aulas de yoga de preparação para o parto, respiração, you name it.

Se eu vos disser que a única coisa que me ajudou durante o trabalho de parto foi a vaivém epidural, chateiam-se comigo?

Não quero estar aqui a desvendar segredos do trabalho de parto, porque não existem. Trazer um bebé ao mundo dói para caraças, e estou a ser simpática. E ser induzida, deixem-me só dizer, wow, mas sobrevive-se. Por isso não se assustem.

O final da gravidez passei-a na casa de verão. É só um andar e temos jardim. Gravidissima como estava queria lá estar a subir e a descer escadas para levar os cães á rua 3 vezes por dia e agachar-me para apanhar os cocos deles. Mas ás 39 semanas agarrámos nas malas e fomos para Copenhaga. Nós vivemos a 5 minutos do hospital e então estávamos descansados.

Durante o tempo de “espera” tive contrações que pareciam ser trabalho de parto. Eram dolorosas e passada 1 hora com dores tornavam-se quase quase constantes em termos de tempo. Ou assim queria eu acreditar. Na semana 40 fui vista pela última vez pela parteira que seguia-me desde as 20 semanas e disse-me que ia ser induzida na semana 41 se até lá o bebe não desse sinais de querer vir.

Entrei na semana 41 e nada. O Mikkel estava confortável dentro da barriga e recusava-se a sair. Escusado será dizer que ele continuava a crescer e eu era e sou pequenina.

Na quarta-feira dessa semana, enquanto comia um caril de peru do Lele comecei a sentir uma pressão enorme no topo do estômago. Com tanto tempo para matar na gravidez li imenso e já sabia de todos os sintomas, por isso fiquei com a pulga atrás da orelha.

Passada uma hora, as dores tinham aumentado e cada contração tinha ido de 7 minutos para 5 minutos. Passada mais uma hora ligámos para o hospital. Mandaram-nos ir de imediato e lá sentiram-me. Lá chegada, quase que por gozo do meu próprio corpo parou-me as dores e a parteira sentiu que eu só estava 1 cm dilatada. Longe de estar em trabalho de parto, até porque as dores que supostamente tinha vim eu a descobrir que eram cócegas. Fomos para casa.

Sábado ás 17:30 entrámos na ala de maternidade do Rigshospital para a indução. Esperámos meia hora na sala de espera. Eu corria pelo feed do Instagram e o meu marido brincava com a televisão. Passou todos os canais até parar num programa antigo com o Emil de Lønneberg. Ele disse, “Já viste que coincidência?” (Ele gostava muito do nome Emil e estava-me a tentar convencer).

Fomos chamados e explicaram-me o processo da indução do parto. Eu cá para mim pensava que me enfiavam um medicamento dentro da vajeijei e esperava até as contrações virem. Mas pelos vistos não. Teria de tomar um comprimido cada hora e meia até eu acabar com eles, e eram bastantes.

A parteira sentiu-me e sentiu a barriga. Disse com ar de pena que o bebé não estava virado com as costas para a barriga e a cabeça não estava bem colocada no cervix. Disse-me que se nada se passasse que poderia correr o risco de cesariana. Ora o que eu queria era um parto com a vajeijei.

Tomei o primeiro comprimido ás 19:00 depois de chegar a casa. Tomei um duche, jantei um bom prato de comida e percorri as coisas que “precisava” para a estadia no hospital e para o bebé. Não sentia nada. Assim que tomei outro ás 20:30, 22:00, 23:30, depois á 01:00 (onde fazia uma pausa até as 6 da manhã).

Entre a 1 e as 6 da manhã, teria 5 horas para dormir. Eu achei que não conseguiria pregar olho de tão entusiasmada que estava e não dormi. Em vez disso dei no duro para o virar de barriga que estava para cima e mudá-lo para baixo. Impossível? Não sabia. Mas tentar não custava nada.

Fiz uns movimentos em 8 que tinha aprendido nas aulas de yoga e brinquei com musica. Ele seguia-a quando a punha perto da barriga, e ele foi de estar com a barriga para cima a virar-se para o lado. Conseguia sentir os pontapés dele. Devia ter ficado quieta. E devia ter dormido. Estúpida.

Exatamente ás três da manhã começo a sentir dores. Penso eu serem mais uma vez as malditas Braxton Hicks que me têm chateado desde as 30 semanas. Passadas duas horas fui de “cócegas” a um certo nível de dor. E ás seis da manhã, intensificaram.

Como sou bem mandada tomei o primeiro comprimido da segunda fase. Não o deveria ter feito. Ou sim. Não sei ao certo. Só sei que passada meia hora contorcia-me com dores. Comecei a contar as contrações e os intervalos entre elas com a aplicação no telemóvel.

Eram 08:00 da manhã, estava com contrações de 40 segundos e 3 minutos de intervalo. Acordei o P. e já mal conseguia andar e falar. Ligámos para o hospital e mandaram-nos vir de imediato. Levei meia hora a pôr as calças porque assim que uma contração vinha eu agarrava-me á barriga e ao berço. Descer as escadas foi um pagode. Entrar no carro foi hilariante e a viagem dos tais 5 minutos até ao hospital, excruciante. O meu marido pensou que eu ia ter o menino logo ali no carro e que voar nas lombas era o mais correto. O que eu lhe chamei naqueles 5 longos minutos!

Deitada já na cama/mesa do consultório na ala de maternidade as contrações não paravam de vir e as dores eram quase impossíveis de aguentar. Vou já avisar que tudo o que se passou nas 24 horas que se seguiram, eu estava num estado quase que fora do corpo. Eu sentia as dores todas mas a minha mente estava noutro sítio.

Uma das parteiras mediu-me a tensão e lembro-me do meu marido ter ficado muito irrequieto. No intervalo de uma contração veio uma médica. Voltou-me a medir a tensão. Fez o teste dos reflexos e tirou-me os sapatos e as meias dos pés. Mais uma contração. Virei-me contra a parede e com as unhas arranhava-a. Parecia estar-me a tornar o Hulk, ou coisa do género.

A médica perguntou-me várias vezes se me sentia bem e se tinha problemas de visão e eu respondia a rir “Você acha mesmo que sim?”. A tensão mostrava 178/95, os meus reflexos estavam super activos e os meus pés inchadíssimos (edema). Alguns dos sintomas de preeclampsia.

Preeclampsia vim eu a saber mais tarde, foi a razão pelo qual ficámos no hospital durante 5 dias. Só vim a descobrir, porque ao pedir comprimidos para as dores e ter pedido Ipren á enfermeira, ouvir: “Ah você não pode tomar isso, ordens da médica!”. Eu em pânico, sabendo de que só com panodil ia sentir as dorzinhas todas, perguntei-lhe o porquê. Ela responde-me de que tinha preeclampsia e que não era seguro tomar. Por alguma razão eu contestei e disse que apenas estava ali porque estava a recuperar. Ela confirmou-me de que não.

Voltando ao trabalho de parto, durante o breve intervalo de uma contração aconselharam-me a levar a epidural. Eu que passei o último mês da gravidez a convencer-me de que não queria epidural e que devia ganhar tomates, gritei que sim, que morria sem algo para as dores. Elas consentiram de imediato e rolaram-me para uma cama movível. Fui levada para a sala de parto.

Comecei a ter problemas de visão. Na altura pensava ser do choque das dores mas era mais um sintoma. Disseram que já viria um anestesista colocar a epidural nas costas e explicaram que me iam dar um medicamento na veia e de que iria sentir muito calor a pontos de me fazer sentir muito doente.

Era magnesium sulfato para baixar a tensão e teria que o receber na veia durante o trabalho de parto. Passados uns minutos o que eu achei horas, entrou o anestesista. Explicou-me os riscos de levar a epidural e eu consenti de que sim, que queria. No intervalo da contração levantei-me e sentei-me á beira da cama. Ele primeiro injectou uma anestesia local e depois inseriu a agulha para a epidural. Senti um frio nas costas quando ele inseriu o liquido.

De todas as coisas de que mais temia, a epidural era uma delas. Felizmente a dor comparada com a contração que se seguiu assim que ele terminou foi um bater de asas de uma borboleta. Impressionante a rapidez do rapaz.

De repente senti-me com imenso calor. A boca ressequiu-me toda e senti-me muito doente. Pedi por favor que abrissem as janelas e nem o ar de uma tarde fria de fevereiro na Dinamarca me conseguia acalmar. Por entre o barulho dos carros a passarem ouvi o que me assustou bastante. Uma mulher gritava pelos pulmões, e eu achei um exagero. De repente reparei que estava sem dores. O meu marido pediu-me para olhar para o ecran e disse-me que eu acabava de ter tido uma contração enorme. Eu respondi aliviada e sem reação. “Well that´s nice.” Fechei os olhos, exausta.

Acho que me deixaram dormir um pouco e só me acordaram porque teriam de me sentir quantos centímetros tinha dilatado. Tinha ido dos três centímetros para quatro. Que fartura. Virei a cabeça para o lado com as dores do toque. A epidural só estava activa da vajeijei para cima. Ora que bem. Nessa vez disseram-me que me iam rebentar as aguas.

Olhando para o lado reparei que já estava escuro e que o calor que antes tinha sentido tinha melhorado. Mas pedi para deixarem a janela aberta. No silêncio da noite, oiço mais uma mulher gritar pelos pulmões, uma pausa e um bebe chorar. As lágrimas vieram-me aos olhos.

Lembro-me de ter pedido o telemóvel e ter escrito para a minha irmã e acho que para a minha amiga. Disse-lhes que a epidural era um máximo. Não deveria me ter gabado do bom que era a epidural. De repente sinto umas dores excruciantes na barriga como se tivesse a ter uma contração e disse ser impossível, eu tinha a epidural. A parteira que tinha supostamente de substituir o frasco com o medicamento decidiu acabar o turno dela sem o fazer. Imaginem não sentir absolutamente nada descansada para sentir tudo de uma vez.

Com o choque enorme das dores dá-me náuseas e desato a vomitar para o lado. Apressadamente a parteira substitui o frasco com o liquido da epidural e passados uns minutos as dores desapareceram. Voltei a respirar de alívio.

Passada uma hora, começo a sentir dores onde eu achava ser entre o útero e a bexiga. De repente a dor que tinha passa de um “aguento” para um “matem-me já aqui”. Eu chorava e suplicava que fizessem algo.

As parteiras tentavam-me explicar que não poderiam fazer mais nada. Uma delas levantaram o saco do cateter e viu que nas ultimas 14 horas tinha feito 100 ml de urina e estava avermelhada. Trocaram-me o cateter. E chamaram o anestesista.

Quando me levantei para o anestesista ver-me as costas senti um liquido quente lá embaixo. Eu chorava e dizia, acho que estou a fazer chichi. Desculpem-me! A parteira riu-se e pediu-me para não me preocupar. Eram as águas que estavam a sair. Sinto um alivio.

O anestesista muda-me a epidural nas costas e diz que volta mais tarde para ver como me sinto. Sou sentida e tinha dilatado um centímetro. Continuo a ter dores excruciantes na bexiga como se lá tivessem enfiado lá dentro uma bola de andebol.

Entre as dores e boca seca e cheia de sede chupo um cubo de gelo. Passados uns minutos volto a vomitar, e vomito mais 5 vezes nas próximas duas horas. Volto a beber, volto a vomitar. Dão-me uma dose de oxytocin para apressar a dilatação. As dores lá embaixo continuam e aumentam.

Disseram-me depois que o bebé estava com a cabeça mesmo em cima da bexiga e estava a ser um obstáculo para eu urinar. Só teria alivio quando ele saísse. Ora que bom, para que raio servia a epidural se não chegava ali?

Lembro-me de olhar em volta a revirar os olhos e de falar baixinho com a parteira quando ela me dizia que estava quase. Tinha dilatado mais um centímetro. Todos estes pormenores foram-me dados pelo meu marido que esteve ao meu lado o tempo inteiro.

Umas horas depois o meu marido deita-se e decide descansar. Acordo-lhe com um grito a dizer que tenho de empurrar. A parteira sente-me e diz-me com um sorriso: “Já está!”

Por alguma razão a parteira não fez nada e sei que levou umas boas duas horas até eu poder empurrar a sério, a comando da parteira mais velha.

“PUSH!!”, grita a parteira. Depois de 5 tentativas falhadas. Em cada intervalo de cada contração, ela motiva-me para respirar fundo antes da contração e baixar o queixo ao peito. Assim que ela surge, empurro com todas as minhas forças.

Parecendo preocupada, a parteira diz-me que vai ter de usar a ventosa, que ele precisa de mais ajuda para poder sair.

Na oitava tentativa ela diz-me para puxar com TODAS AS MINHAS FORÇAS. E gritar se precisar. Ela diz-me “Prepara-te! Inspira! Empurra agora!”

Empurro com tudo o que tinha e gritei “Come ooooout!!”

Eram 08:50 numa fria segunda de manhã em Fevereiro. Sinto um alivio na bexiga e um prazer enorme! O Mikkel tinha saído. Todinho, de uma vez! Espetáculo. No entanto, não oiço nada. Supostamente os bebés choram quando saiem, e quando lhes estimulam certo? “O que se passa com ele??”, pedia eu, já sem forças nenhumas.

Foram os dois minutos mais longos da minha vida. Ele não se mexia enquanto deitado na caminha do bebé recém nascido de hospital e as enfermeiras fizeram-lhe mil e uma coisas enquanto ele tinha oxigénio na boca.

Eu olhava para o meu marido e exigia uma resposta! “Fala com elas, o que se passa?”. Ele agarra-me na mão e não faz nada. Só olha para mim. Eu fico sem reação. Olho para a parteira e ela calada.

De repente oiço-o! Ele chora e como se estivesse a engasgar as parteiras poêm-lhe um tubo de sução na boca e ele começa a mexer os braços e as pernas para cima e para os lados.

Elas olham para mim e dizem “He is okay.”

Eu desato num pranto e começo a rezar e a agradecer por tudo. Elas embrulham o  Mikkel numa manta e colocam-o no meu peito.

Eu digo, baixinho, “Happy Birthday Mikkel, bemvindo ao mundo.”

Instagram: @Lullebloom

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